Musicoterapia, um recurso terapêutico por meio da 4◦ arte
- Agência VersAto
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- 11 de ago. de 2020
- 4 min de leitura
Atualizado: 12 de ago. de 2020
Aliada ao ritmo e a melodia, método auxilia na manutenção do estado de saúde de seus usuários, além de desenvolver formas expressão e relacionamento.


Os internos andam devagar, uns sozinhos, alguns outros amparados pelos ajudantes. Ou estão parados, com um olhar distante enfrentando os seus próprios demônios, causados pela idade ou por doenças como demência ou mal de Alzheimer.Mas vivem em harmonia, esse local onde o tempo parece ser inerte.
Tudo sempre pacato, num lento compasso praticamente imutável. Mas é ao som do primeiro acorde onde tudo ganha cor. E tal ambiente, uma vez cheio de melancolia é tomado por uma alegria contagiante, e o tempo, assim como cada um dos internos presentes, passa a acompanhar o ritmo.
Musicoterapia é o que traz cor e movimento para o lugar. É um método de tratamento à base de música que surgiu logo após a 2° grande guerra. Nessa época, alguns músicos eram convidados a tocar em hospitais de feridos, e graças a um progresso no estado físico e metal dos pacientes essa área começou a ser desenvolvida, dando gênese a hoje conhecida musicoterapia.

Com o ritmo, melodia e harmonia, essa terapia colabora na reabilitação, tratamento e prevenção de distúrbios psíquicos, emocionais e também cognitivos. É um espetáculo. Mas como toda grande apresentação necessita de plateia, o Centro Mãe Luiza foi palco.
Localizado no Jardim do Mar, em São Bernardo do campo, o Centro Dia Mãe Luiza é um desses palcos terapêuticos. Foi fundado a pouco mais de 1 ano e 5 meses por Fernanda Rodrigues de Sousa. Um centro dia, diferente de uma casa de longa permanência, é um local que objetiva acomodar o idoso apenas durante o dia, para que no fim da tarde ele possa voltar para o seu lar. O nome escolhido para o local é em homenagem a avó de Fernanda, dona Luiza Izabel dos Santos, que antes de falecer, há cerca de 3 anos, necessitava de um local com os exatos atributos de um centro dia. “Toda vez que a gente pronuncia o nome mãe Luiza temos na cabeça que gente quer oferecer para os nossos idosos aquilo que a gente ofereceria para nossa própria avó”.

Felipe de Camargo Marques, de 27 anos, é o maestro, ou melhor dizendo, o musicoterapeuta responsável por elevar o bem-estar de todos os presentes no Centro Dia. A pouco mais de 3 anos no ramo, escolheu tal área de atuação pois sempre sentiu uma forte conexão com música. “Eu já entendia, de certa forma, algum poder terapêutico na música”. E além de tê-la como trabalho, Felipe a mantém como sua principal companheira também em seus momentos de lazer. Improvisa no jazz e no rock em várias de suas bandas por aí. É estudante de música e admira um bom show ao vivo. “Sempre se manter gostando de música é bastante importante para o musicoterapeuta”.
Ao chegar no Centro Dia sempre segue o mesmo educado roteiro. Vestido com seu avental, Felipe vai cumprimentando a todos os presentes e, por entre brincadeiras, apertos de mão e gentis beijos recebidos, pergunta como cada um deles está. Sempre acompanhado de perto por seus fiéis assistentes: violão, bongô, tantã, xilofone e uma caixinha de som. Cada um deles dispõe de um papel vital em cada consulta, já que são de fácil manuseio possibilitando assim a participação de todos que queiram ir um pouco mais além de ouvir. “A relação das pessoas com a música é sempre especial, e ela é sempre muito única”.

A PLATEIA
De fala carinhosa e jovial, Margarida Cassales Camossato é uma das integrantes dessa plateia. Sempre foi apaixonada por música, cita os discos de vinil que possuía, e como foram lentamente desaparecendo com o passar do tempo. Hoje, na flor de seus 88 anos de idade, convive diariamente no Centro Dia e se recorda de Nelson Gonçalves, o seu artista predileto. “Se tiver uma pessoa que fala: ‘aí, eu não gostava do Nelson’, é dor de cotovelo, porque ele não quis dormir com ela, né”. Diz em tom humorado.
Inspiração, alegria e leveza são os sentimentos definidos por Margarida ao participar de cada consulta. “Aquela pessoa ranzinza que fico de vez em quando não existe. Eu me sinto diferente”. Com certa dificuldade na locomoção devido a um problema no joelho, participa da cantoria sempre no mesmo canto, acompanhada de perto por sua bengala. Absorve cada música como se estivesse ouvindo-a pela primeira vez. “Eu gostaria de ter estudado música”.

Yoneko Kawagoe compõe o grupo de internos. De família japonesa, mora no Brasil desde que nasceu. “Trabalhei desde os cinco anos na roça. Então não participei desse negócio de música”. Hoje aos 82 anos, participa das aulas com uma leve timidez no cantar, mas apenas por não ter muito conhecimento musical. Mas é com os instrumentos que Yoneko colabora no compor dessa prosa. Sempre com o bongô ou xilofone em mãos, segue o ritmo ditado pelo violão ou pela voz de Felipe. “Eu me sinto muito leve, né. Me sinto leve, tocando, ouvindo”. Finaliza Yoneko em devaneio.
Seja por sua facilidade em integrar a todos, ou por seus incontáveis benefícios, a musicoterapia se destaca como maneira de tratar. E assim como as antigas bandas de Rock ou de Jazz, que ficaram marcadas na história através de seus sons, a musicoterapia, da mesma maneira, é capaz de impedir os seus pacientes de se esquecerem das memórias de sua própria história. Ela ajuda a mantê-los na narrativa nem sempre harmoniosa da vida. Portanto nesse cenário, quem canta, literalmente, os males espanta.

Fotos: Leandro Alves
Por: Leandro Alves






























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