Entrevista
- Agência VersAto
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- 18 de set. de 2020
- 5 min de leitura

A importância do voto e suas consequências
A política é um tema que é, ou pelo menos deveria ser, assunto de debates recorrentes dentro de uma sociedade tão desigual, quanto a brasileira. Más escolhas, venda de voto entre tantas outras ações, acabam prejudicando preferencialmente moradores de periferias e comunidades carentes.
Para auxiliar neste processo eleitoral no ano de 2020, a Agência VersAto entrevistou Juan Droguett, pós-doutor pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, escritor, educador, psicanalista e que atualmente trabalha na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, num programa de pós-graduação stricto-sensu. No bate-papo, ele destaca a importância do voto consciente e como o jornalismo pode contribuir durante as eleições. Vale ressaltar que a missão desta entrevista é induzir o leitor à uma escolha consciente e não partidarizar os seguidores. Acompanhe

Quais as fontes que devemos buscar para conhecer nossos possíveis representantes?
A responsabilidade eleitoral é, antes de tudo, uma obrigação de todo e qualquer cidadão existente tanto do ponto de vista individual quanto do ponto de vista coletivo. Precisa-se, portanto, que esse cidadão seja capaz de recorrer a fontes confiáveis para a realização de uma escolha consciente dos seus representantes para fazer efetiva a opção democrática, baseada em políticas sociais capazes de sustentar o bem comum, acima de interesses partidários. No plano local, imediato e restrito, fontes confiáveis serão a daqueles veículos que apresentam alternativas a esse quesito da democracia no exercício da liberdade na esfera pública.
Como evitar propagar fake news em período eleitoral?
Fake news se evitam com a checagem da informação. Por esta razão, a objetividade da informação que traz à tona a verdade atrelada às determinantes do tempo e do espaço, convertem-se num fator chave no combate às fake news. Contudo, isso não é suficiente na prática operacional de um jornalismo que compromete o papel do profissional responsável por informar, porque este coloca em jogo sua própria opinião sobre os fatos na ordem do espaço público. Nesse sentido, levantamento, pesquisa e planejamento com rigor, possibilitam que essa escolha vise igualmente o poder de influência sobre o público de um modo geral. Talvez esta seja a brecha na qual existe uma opção ética e moral que define a atuação destes profissionais na esfera pública. Períodos eleitorais são momentos de reflexão, oportunos, nos quais prevalece o sentido da discussão.

Como o cidadão pode buscar informações concretas para desenvolver sua crítica às propostas de campanha?
Hoje em dia os cidadãos têm acesso amplo e irrestrito à informação. Não por isso eles possuem uma vivência real com aquilo que sabem do âmbito público, dos bastidores do poder. É importante vivenciar o conhecimento para que este se converta depois numa ação deliberada que favoreça esses interesses públicos dos quais falo acima. A crítica sempre necessita de um certo distanciamento e a prática de uma leitura atenta dos fatos, opiniões na cobertura de uma campanha. Discernir sobre um partido político converte-se em tarefa indiscutível, mesmo que esses partidos possuam um histórico com altos e baixos nas suas negociações. Sendo assim, outro passo consiste em saber o quanto esse partido e seus representantes estão comprometidos com os valores da democracia, liberdade de expressão e Direitos Humanos. Os políticos devem ser um exemplo objetivo dessas práticas sociais, assim como também seguidores identificados com a causa de todos. Uma crítica às propostas de campanha consiste não apenas em analisar prós e contras, significa realizar de fato a proposta de uma alternativa ou à própria reformulação da campanha ou a uma outra ideia que traga novas perspectivas.

Como deve ser feita a cobertura dos veículos de comunicação comunitária nos anos de eleição?
Veículos de comunicação comunitária tomam como base as informações do TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Informações públicas a respeito de partidos, candidatos e projetos de governabilidade úteis na base de dados nacional. Embora comunicação comunitária envolva o pressuposto de uma comunicação democrática, a evolução ideológica de um partido, candidato e seguidores. Na prática tudo isso é suscetível de desvio, fake news, corrupção. Mais uma vez, em detrimento dos interesses públicos, distancia-se do direito à informação e à comunicação. Coberturas em ano de eleição devem mostrar tudo, a fim de que o público possa realizar uma escolha consciente que estabeleça identidade e que garanta o destino da nação e de todos os seus cidadãos.

O voto em branco ou nulo, a fim de protestar tem alguma relevância? Se sim, Qual?
Em toda eleição democrática o voto branco ou nulo como forma de protesto é válido. No caso do sistema eleitoral brasileiro, talvez amorteça inclusive o fato desse voto ser obrigatório. Sinal de que o processo ainda precisa dar um passo a mais no amadurecimento de um sistema que possa garantir o exercício pleno da cidadania. Protestar é uma expressão democrática digna perante o princípio da representatividade. Daí a relevância que tem para todos aqueles que não se sentem representados pelo poder contingencial. Esse tipo de crise institucional no Brasil é endêmico e, desta forma, caracteriza o descompromisso de alguns brasileiros com os rumos que o país está tomando. Nesse vértice da democracia ainda há um vácuo histórico tratado por antropólogos como Sérgio Buarque Holanda, Darcy Ribeiro, Roberto DaMatta, entre outros, acerca do DNA político dos brasileiros.

Como as pessoas de baixa renda devem encarar as eleições?
Pessoas de baixa renda devem encarar as eleições como uma oportunidade de reivindicar seus direitos de cidadãos. O abismo criado entre as classes sociais no Brasil tem calado a fundo a voz da periferia, dos setores menos favorecido e dos discriminados pelo preconceito. Ignorância e superstição pautam hoje em dia políticas de exclusão de grande parte da população. Nesse sentido, o papel do jornalismo consiste em dar voz, incentivar, lutar e deixar aflorar o princípio da revolta contra a opressão dos mais vulneráveis. Isso para mim, tem uma conotação ao modo de um imperativo existencial que compromete a minha profissão de educador.

Qual a importância de não vender o voto?
A venda do voto é uma prática ilícita, legitimando o oportunismo daqueles que compram em detrimento da exploração humana. Isto é inconcebível e fomenta a corrupção, a imoralidade e a falta de ética, num país no qual, tudo tem um valor comercial, monetário e de produtividade no sentido mais exploratório.
Como os políticos tem que conduzir as ações sociais nas periferias?
Os políticos devem conduzir suas ações sociais baseados em prioridades: saúde, educação, segurança. Tais políticas públicas têm-se adquirido um caráter emergencial que desabrocha mal-estares de uma população em colapso. Mais uma vez as crises que vêm se sucedendo deixam claro estes cenários caóticos que se apresentam nos noticiários todos os dias. A Nova Ordem Mundial reforça uma polarização política artificial que em lugar de reivindicar o direito natural, opta pela criação de paraísos virtuais deixando às claras uma sociedade baseada no consumo e no espetáculo. A saúde deve ser vista como o direito à vida de todos e para todos, a educação fundada no espírito crítico e a segurança em políticas de fronteiras que vão além das diferenças contingentes de raça, sexo e crenças religiosas. Ações sociais devem ser direcionadas à periferia para que assim o centro seja fortalecido por um convívio sadio, consciente e sustentável.

Como podemos agir democraticamente em meio às polaridades políticas existentes no Brasil?
Toda ação tem que ser deliberativa, fundada na participação. Participação que demanda a implementação de políticas públicas nas quais fique em evidência a verdadeira necessidade dos brasileiros. A polarização política engendra ódio, receio e violência. É missão do jornalista fazer a população acordar para essas desigualdades e incentivar a consciência política da igualdade, passando por cima do preconceito, oportunismo e ignorância que ainda fazem parte da sensibilidade, conhecimento e atuação política no Brasil.
Por: Douglas Reis


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